Budismo, família e treino: armas de Nicolas para levar esgrima ao pódio no Pan

Por Thiago Rocha - iG São Paulo |

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Esgrimista classificado para os Jogos de Toronto usa mantras e orações para buscar seus objetivos na vida e no esporte. Brasil não conquista ouro na modalidade há quase 50 anos

O esgrimista Nicolas Ferreira
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O esgrimista Nicolas Ferreira

No jogo diário de superação dos próprios limites, é normal que atletas adotem rituais ou superstições antes de competir ou treinar. O paulista Nicolas Ferreira, de 22 anos, mentaliza seus objetivos como esgrimista com a ajuda do budismo, filosofia seguida por toda a sua família. Ele acredita que os mantras e a meditação que a religião propõe já o ajudaram a atingir muitas metas, a mais recente delas foi a vaga para os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, em julho.

"É mais que um ritual. Eu sou budista, minha família é budista, então coloco meus objetivos anuais, lá estava minha classificação para o Pan, anoto num papel, e faço minha oração de manhã e à noite pensando nisso. Minha família é muito religiosa nesse aspecto, então baseio todos os treinamentos, todos os objetivos, a pressão, tudo com base no budismo de Nitiren Daishonin, que é o que eu sigo", contou Ferreira, esgrimista do Pinheiros, ao iG Esporte.

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A vertente do budismo seguida pelo atleta tem origem em Nitiren, monge que viveu no Japão no século XIII, e baseia-se na ideia de que todas as pessoas têm o potencial de atingir a iluminação. Para alcançar esse estágio, Nicolas Ferreira escolheu uma tríade. "A esgrima exige muito isso (a concentração). Essa associação com os treinos, a família que apoia muito e a religião é um tripé que sustenta bem a vida do atleta."

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Nicolas Ferreira costuma usar a bandeira do Brasil estampada em seu capacete
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Nicolas Ferreira costuma usar a bandeira do Brasil estampada em seu capacete

Nicolas começou na esgrima aos 10 anos, em curso gratuito oferecido no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e três anos depois foi convidado para integrar o time do Pinheiros. A ideia inicial era praticar outra modalidade. "Minha mãe é professora de Educação Física, dá aulas de natação, e o sonho dela era ter um nadador em casa, mas desde cedo provei que não era muito o meu estilo", confessou. Atualmente ele é vice-líder do ranking nacional e 41º do mundo (o melhor brasileiro na lista da Federação Internacional de Esgrima) na categoria espada, confirmando a vaga para Toronto, o primeiro Pan de sua carreira, ao vencer a etapa de Curitiba do Circuito Nacional.

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Na rotina de treinos e orações, ele ainda arruma tempo para os estudos. Ferreira cursa Engenharia e adequa a atividade paralela ao calendário de competições internacionais. "Como as (etapas da) Copas do Mundo coincidem no primeiro semestre, então eu tenho feito, já há alguns anos, só esgrima o primeiro semestre, e o segundo concilio com a faculdade. Essa vida dupla de atleta e estudante realmente não é fácil." Encaixar as tarefas em 24 horas pede algumas privações, como dormir pouco, mas ele aproveita o vigor dos 22 anos de idade para superar o cansaço.

"Normalmente a faculdade é pela manhã, depois almoço e venho direto para o clube, treino parte física às 14h, aí faço um intervalo de uma hora, que é quando tento colocar as matérias em dia, e depois, a partir das 16h, 16h30, treino até às 22h. Chego em casa, se é véspera de prova ou preciso entregar trabalho eu viro a noite, ou acordo um pouco mais cedo para fazer. Essa é a hora de me dedicar ao máximo, a juventude me permite."

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O esforço de Nicolas Ferreira para chegar ao pódio no Pan de Toronto e ter a chance de disputar os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, pode parecer algo individual, mas na filosofia do esgrimista é uma entrega coletiva. Aí entra novamente sua crença no budismo. "Tem um termo budista, Itai Doshin, que significa diferentes corpos com a mesma mente. Não é só o Nicolas que está indo lá, a família inteira está indo. A vitória, a derrota, a família inteira está sentindo, ligada pelo laço da religião, com as orações, o mesmo foco, o mesmo objetivo. Acho que isso dá força, ter todo esse suporte familiar por trás."

O Brasil conquistou 13 medalhas na esgrima em Jogos Pan-Americanos, mas apenas uma foi de ouro, com Arthur Ribeiro em Winnipeg-1967. Romper um jejum de 48 anos é o incentivo dos sonhos para quem almeja disputar as Olimpíadas. Mais um objetivo para Nicolas Ferreira mentalizar em suas orações.

Nicolas Ferreira é o 41º colocado, e melhor brasileiro, no ranking mundial da categoria espada
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Nicolas Ferreira é o 41º colocado, e melhor brasileiro, no ranking mundial da categoria espada


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