Dono de 15 medalhas em sete Pans, Hoyama estreia como técnico no evento

Por Alessandro Lucchetti - iG São Paulo |

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O mesa-tenista, que ainda dá suas raquetadas aos 46 anos nos Jogos Abertos do Interior, lembra histórias da competição

Hugo Hoyama comemora sua décima medalha de ouro em Jogos Pan-Americanos
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Hugo Hoyama comemora sua décima medalha de ouro em Jogos Pan-Americanos

Não há como se falar na história da participação brasileira em Jogos Pan-Americanos sem lembrar de Hugo Hoyama. Afinal, se Thiago Pereira tomou do mesa-tenista o primeiro lugar na lista dos maiores colecionadores de medalhas de ouro do evento, fazendo por merecer o apelido de "Mr. Pan", Hugo justifica plenamente a reputação de "Senhor Pan", assim mesmo, em português. Afinal, ele já era um senhor quando, aos 42 anos, conquistou sua décima e última peça dourada pan-americana, em Guadalajara-2011.

Hoje, aos 46 anos, Hugo ainda dá suas raquetadas, participando como atleta de competições como os Jogos Regionais e os Jogos Abertos do Interior por sua cidade natal, São Bernardo do Campo (no ABC Paulista). Em sua oitava participação em Pans, ele vai na condição de técnico da seleção brasileira feminina. Já sob o seu comando, a equipe foi campeã do Mundial da Segunda Divisão no ano passado, no Japão.

"Ser treinador dá muito mais dor de cabeça. Tenho de pensar em estratégias, saber escolher as jogadoras mais adequadas para as partidas de simples e duplas, liderar e dar apoio emocional. Não é fácil".

Hugo prepara-se para embarcar para Toronto com a empolgação de voltar a fazer parte de um evento que lhe proporcionou dois dos momentos mais marcantes de sua bem longa carreira de atleta. "Nunca vou me esquecer do dia em que fui o porta-bandeira da delegação brasileira, em 2011, um orgulho muito grande. E a outra grande emoção foi no Pan do Rio. Ganhar uma medalha e depois dar um abraço no meu pai, que estava assistindo, foi fantástico".

Assista a entrevista com Hoyama:

A sala na qual dá treinos para a equipe de São Bernardo, em frente ao estádio da Vila Euclides, é a mesma onde Hugo começou a praticar a modalidade a sério, aos sete anos de idade, depois de se encantar com o esporte na escola, a União Cultural Nipo-brasileira do ABC. Um quadro com uma foto de Claudio Kano, até hoje o brasileiro que alcançou a posição mais alta, a 41ª, no ranking da ITTF (Federação Internacional de Tênis de Mesa), inspira os jovens praticantes. Hoyama se emociona ao recordar do grande amigo e parceiro de tantas glórias. 

"O Cláudio foi o primeiro grande ícone do tênis de mesa brasileiro. Lógico que tivemos o Biriba antes, mas ele não teve tanto espaço na mídia. Cláudio Kano contribuiu com vitórias e títulos, e ele além disso tinha muito carisma, inspirava as crianças. Ajudou muito a tornar o esporte mais popular", disse.

Quatro anos mais velho do que Hoyama, Kano deu um bom empurrão para que o colega deslanchasse na modalidade. "Era muito mais do que um amigo. Era como um irmão pra mim. Até me emprestava borrachas importadas para as minhas raquetes, um material que era difícil encontrar no Brasil naquela época".

Kano e Hoyama ganharam tudo nas edições de 1991 e de 1995 do Pan. Graças a eles, o Brasil foi campeão por equipes e em duplas. Os dois se enfrentaram nas duas finais individuais. E em ambas Hoyama superou o mestre.

"Minha vitória na final de 1991 foi uma surpresa para ele. A gente já havia se enfrentado por umas 15 vezes, e eu só havia vencido uma, em 1988. Ele ficou meio chateado, deu um sorriso, mas era amarelo. Em 1995 eu ganhei dele novamente, mas ele aceitou de uma forma bem mais natural, porque sabia que eu estava bem preparado e vivendo um melhor momento."

A dupla tinha grandes planos para a Olimpíada de 1996. Kano passou um ano se preparando no Japão, mas morreu justamente no dia em que embarcaria para Atlanta. Antes de ir para o aeroporto, o atleta pegou sua moto para fazer uma entrega a pedido do pai, a quem ajudava na administração de uma empresa familiar. Na Marginal do RIo Pinheiros, ele foi fechado por um carro, se acidentou e faleceu quando era atendido no setor de emergência do hospital.

Traumatizado, Hoyama recebeu a ajuda de Nuno Cobra, que se tornou conhecido graças ao trabalho de preparação física e mental de Ayrton Senna. "O Nuno Cobra me deu muita força. Ele disse que, dali em diante, eu teria de batalhar por dois, por mim e pelo Kano, e assim eu fiz".

Depois da morte de Kano, com a progressiva inclusão de chineses naturalizados no Pan, Hoyama viu suas dificuldades crescerem e nunca mais conquistou um ouro individual. Mas ainda somou três medalhas de ouro: nas duplas, em 2003, ao lado do pernambucano Thiago Monteiro, e em 2007 e 2011, na disputa por equipes.

Ainda em 2003, um outro Thiago, Pereira, deu início à sua coleção de medalhas de ouro, que perseguiu com voracidade em 2007. No Pan de Guadalajara, o nadador ultrapassou Hoyama. Hoje, Thiago tem 12 medalhas de ouro, e Hoyama possui uma dezena. "Eu sabia que o Thiago ia me ultrapassar. Mas a conquista do ouro em Guadalajara eu festejei muito. O ponto decisivo, na final, fui eu que conquistei. Eu lembro que no Rio meus colegas foram correndo para comemorar comigo. Em Guadalajara eu fui muito mais rápido. Acho que bati meu recorde de velocidade e corri para encontrá-los. Comemorei muito, porque sabia que era a última".

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