Atletismo brasileiro não tem perspectiva de superar barreira dos 10s nos 100m

Por Alessandro Lucchetti (ig - São Paulo) |

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Papel brasileiro na prova nobre da modalidade em eventos de alto nível é de mero participante em eliminatórias. Mesmo com mais dinheiro e pistas, trabalho na velocidade é infrutífero

Robson Caetano conquistou o ouro nos 100m e 200m do Pan de Havana-91
Divulgação/CBAt
Robson Caetano conquistou o ouro nos 100m e 200m do Pan de Havana-91

Para o atletismo brasileiro, a prova dos 100m rasos é com barreira. No caso, esse obstáculo é o limite dos 10s. Tempos abaixo dos 10s são comuns em semifinais de competições de altíssimo nível, como os Jogos Olímpicos e os Mundiais de Atletismo. No mundo, a barreira dos 10s foi quebrada em 1968, pelo norte-americano Jim Hines, que registrou 9s95 na Cidade do México. Mas nunca nenhum brasileiro conseguiu correr a distância abaixo dos 10s. O recorde nacional até hoje pertence a Robson Caetano, que correu em 10s cravados, no Meeting de Bruxelas de 1989, com direito a vitória sobre Carl Lewis.

A última final olímpica da prova nobre do atletismo com presença de um brasileiro foi em Seul-1988, em que Robson Caetano chegou em quinto-lugar, com 10s11. Exames antidoping revelaram que, dos quatro atletas que chegaram à sua frente, três estavam dopados. Caso todos os resultados tivessem sido invalidados, o brasileiro receberia a medalha de prata, e o norte-americano Calvin Smith ficaria com o ouro.

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Mas como se explica a involução do Brasil na prova? De 89 até hoje, algumas pistas certificadas pela Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo) foram construídas, e o volume de recursos direcionado à CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) cresceu bastante. Em 2015, a entidade, além de outras fontes de dinheiro, tem uma fatia de R$ 3,9 milhões dos recursos proporcionados pela Lei Piva, que direciona uma porcentagem da arrecadação das loterias para o esporte olímpico.

Na avaliação de Robson, o principal problema está na pista: são os recursos humanos. "Infelizmente os atletas não se comprometem como deveriam. Hoje há muitas distrações: computador, celular, tablets. Acho que está faltando trabalho. Se cheguei aonde cheguei, foi pelo trabalho. Trabalhei muito, tanto que dois campeões olímpicos brasileiros, ninguém menos do que Adhemar Ferreira da Silva e Joaquim Cruz, disseram que um dia eu ia quebrar o recorde mundial, porque viram minha dedicação. Isso não aconteceu, mas eu consegui meus resultados", diz o ex-velocista, que saiu da "TV Record", a emissora pela qual foi comentarista do último Pan e da Olimpíada de Londres.

Para comparar, jamaicano Usain Bolt já correu os 100m em 9s58
Andrew Winning/Reuters
Para comparar, jamaicano Usain Bolt já correu os 100m em 9s58



"Eu treinei em pistas precárias. Comecei na Ilha do Fundão, numa pista de carvão cheia de buracos. Depois fui correr embaixo da piscina do Botafogo. Só então é que fui para pistas melhores, na Escola de Educação Física do Exército, na Urca, e no Célio de Barros (Maracanã). Depois eu e meu técnico (Carlos Alberto Cavalheiro) fomos com a cara e a coragem para os Estados Unidos. Eu queria mostrar que era possível um brasileiro conseguir grandes resultados nos 100m. Na prova individual, porque no revezamento qualquer um consegue", afirma Robson, dando uma alfinetada na obsessão nacional pelo 4x100m, que salvou a pátria da velocidade brasileira em alguns Mundiais e Olimpíadas. "Hoje, com mais pistas e dinheiro, o pessoal não está conseguindo bater meu recorde". 

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Robson aponta ainda que o nível de remuneração que recebia era muito inferior ao percebido pelos melhores velocistas do Brasil hoje. Definitivamente, dinheiro não é problema para o atletismo brasileiro hoje. 

"O Brasil está até jogando dinheiro pela janela. Será que alguém pode me explicar por que o Michael Johnson (bicampeão olímpico dos 400m em Atlanta e Sydney, entre outros resultados), é assessor do COB e da CBAt? Será mesmo que um norte-americano vai ensinar o caminho das pedras para futuramente ter um adversário na pista para o país dele?", pergunta-se Robson, que não esconde que gostaria de ser designado para a função. "Acho que seria o mínimo de respeito por alguém que já fez o que fiz pelo atletismo brasileiro".

Katsuhico Nakaya, treinador de velocistas da CBAt e da equipe BM&F, acha que o atletismo precisa chegar a um maior número de crianças e jovens brasileiros. "Temos mais de 30 milhões de jovens no Brasil. Quantos deles terão algum contato com a modalidade? Precisamos de massificação, temos que ter atletismo nas escolas para descobrir os atletas geneticamente privilegiados. Nos 100m, o fator físico predomina. Não é uma prova como o salto com vara, por exemplo, em que existe preponderância da técnica".

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Na avaliação do treinador, que foi finalista olímpico do 4x100m em 80 e 84, o material genético brasileiro pode proporcionar resultados. "Hoje a prova dos 100m é dominada por atletas negros caribenhos e norte-americanos. Dos negros que vieram para o Brasil, o grupo mais apto para as provas de velocidade é o dos sudaneses. Nós precisamos mapear o caminho deles, fazer um estudo histórico. Eles chegaram pelo Rio e pela Bahia, se distribuíram por Minas e chegaram até o Maranhão. Precisamos seguir o caminho dos quilombos. O atletismo precisa chegar até eles!".

Segundo Nakaya, os recursos são concentrados no alto rendimento, mas o esporte de base é que deveria receber atenção especial. E esse trabalho insuficiente na base, que já descobre poucos atletas para os treinamentos de iniciação, é desperdiçado depois, pelos treinadores das categorias de base.

"Não me canso de falar aos treinadores da base, para que não tirem todo o sumo do atleta dos 13 aos 15 anos. O que acontece no Brasil é que, na ânsia para obter resultados, os técnicos tiram tudo dos meninos antes do tempo. Nessa idade, temos que trabalhar o aspecto coordenativo e técnico. Com a maturação física, naturalmente os resultados melhorarão, graças ao desenvolvimento gradativo da força e da explosão. O que ocorre é que os atletas são verdadeiramente sugados em tenra idade, o que prejudica o seu desenvolvimento posterior. Perdemos gerações assim".

Jamaicano Yohan Blake tem a segunda melhor marca da história: 9s69
AP
Jamaicano Yohan Blake tem a segunda melhor marca da história: 9s69



Nelson Rocha, um dos primeiros treinadores de Robson Caetano, e colega dele e de Nakaya na equipe de revezamento de 84, é outro sinônimo de desperdício. Como a modalidade regrediu muito no Rio, o técnico hoje dá aulas de educação física numa escola em Realengo.

"Nós não temos um modelo esportivo no atletismo. Este é um país que destroi uma pista como a do Célio de Barros. Hoje você vai lá à noite e aquilo virou palco de festas de música eletrônica. O Ministério do Esporte dá mesmo muito dinheiro para a CBAt, mas cadê? Os 100m rasos são sim uma enorme barreira para o brasileiro. Ele vê um jamaicano, um norte-americano e se sente menor. É porque não existe um modelo, um trabalho organizado por trás dele", afirma Nelson, que é pai de uma das melhores velocistas do país, Evelyn dos Santos.

"Nós precisamos de consistência, apoio, cobrança e monitoramento. As carências são tantas, e o técnico acaba virando pai, psicólogo, empresário. Ele não dá conta. Precisa buscar conhecimentos, se aprimorar. É difícil orientar um atleta que nunca teve nada. Ele ganha seu primeiro salário e vai correndo comprar um carro, se deslumbra, se perde. A marca de 10 segundos nos 100m é uma barreira e vai continuar sendo enquanto não mudar muita coisa".

O recorde brasileiro de Robson Caetano é um dos mais antigos do atletismo brasileiro, que evoluiu francamente até em provas nas quais não tem nenhuma tradição, como arremesso de peso e lançamento de disco, por exemplo. A única marca de prova olímpica mais antiga pertence a outro grande nome da modalidade: Joaquim Cruz, que correu os 800m em 1min41s77 em 84.

Confira imagens da cerimônia de boas-vindas à delegação brasileira em Toronto:

Mascotes do Brasil (à esq.) e do Pan de Toronto se encontram na Vila. Foto: Washington Alves/Exemplus/COBDelegação brasileira faz pose na chegada à Vila do Pan-Americano. Foto: Washington Alves/Exemplus/COBAtletas do Brasil posam com Pachi, a mascote do Pan de Toronto. Foto: Washington Alves/Exemplus/COBDelegação brasilera visita a Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iGDelegação brasilera visita a Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iGDelegação brasilera visita a Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iGDelegação de Porto Rico é recebida na Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iGDelegação de Aruba visita a Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iGDelegação brasilera visita a Vila do Pan-Americano de Toronto. Foto: Thiago Rocha/iG


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