Etiene, 1ª brasileira campeã do Pan na natação, bate sua adversária: a preguiça

Por Alessandro Lucchetti (iG São Paulo) |

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Pernambucana chegou a São Paulo, há três anos, querendo nadar apenas provas de 50m, evitando treinar mais do que 5 mil metros por dia. Técnico do Sesi despertou-lhe a ambição


Etiene Medeiros faz prova histórica nos 100m costas, com recorde e ouro inédito para a natação brasileira
Satiro Sodré/Divulgação CBDA
Etiene Medeiros faz prova histórica nos 100m costas, com recorde e ouro inédito para a natação brasileira

Etiene Medeiros vira os braços para trás como uma maquininha. Tão rápido que registrou o sétimo melhor tempo do mundo na final dos 100m costas do Pan - 59s61, o suficiente para bater a norte-americana Natalie Coughlin, dona de 12 medalhas olímpicas. Mas a pernambucana não nega que gosta mesmo é de paz e sosssego.

No retorno ao Brasil, nesta segunda-feira, voltou ao ritmo vertiginoso paulistano. Foi direto do aeroporto para a avenida Paulista, sede da Fiesp - ela nada pelo clube do Sesi - para posar para fotos ao lado de Paulo Skaf, interessadíssimo em atrelar sua imagem às das vitoriosas garotas da piscina.

Etiene começou no Sport, em Recife
Reprodução/Instagram
Etiene começou no Sport, em Recife

Logo ao sair d'água com a vitória, Etiene admitiu, em entrevista, que teve que vencer sua preguiça para triunfar. O treinador Fernando Vanzella conta como foi essa luta. "Quando chegou ao clube (do Sesi, na Vila Leopoldina, zona oeste paulistana), foi muito interessante a entrevista com ela. A Etiene disse que não gosta de nadar mais de 5 mil metros por dia. Tinha essa coisa de querer nadar só uma prova, de nadar só 50m. Aos poucos fomos construindo a confiança dela, mostrando que poderia nadar 100m, não apenas 100m costas, mas 100m livre e 100m borboleta. No borboleta, ela pode chegar à semi ou até à final do Mundial. Temos apenas que ter cuidado para não abrir muito o leque de competições e desgastá-la. No Mundial ou na Olimpíada, o programa dura oito dias, diferente do Pan, que é de cinco. Aí ela terá mais tempo para descansar. Vamos ver quais provas trabalhar".

Etiene destaca como foi importante o papel de "Vanza", o treinador Vanzella. "Sempre fui uma pessoa da paz. Gosto de levar a minha vida meio devagar, naquele andar da Etiene", diz a nadadora, alongando as sílabas, reduzindo o ritmo da fala para demonstrar como é moroso esse caminhar. "Eu tinha que ter um mosquitinho pra me picar. O Vanza falava toda hora pra mim: não vou desistir de você", lembra a recordista mundial dos 50m costas em piscina curta (25s67). "Eu aceitei o treino dele. O trabalho tem que ser de respeito, transparente. A postura dele e de todo o pessoal do Sesi ajudou a me desviar daquele meu jeito".

Em São Paulo, Etiene passou a querer mais. "Eles me despertaram uma ambição. Sou hoje uma pessoa totalmente diferente, mais madura. Sou uma mulher. Era um pouco tímida, hoje sou mais segura do que faço".

O próprio Vanzella está reformulando sua visão sobre o potencial de sua pupila. "No banco de controle eu disse à Etiene que ela ia ganhar a prova. Naquela hora, alguns nadadores ficam ouvindo música, outros aquecendo, trocando olhares. É um momento psicológico muito forte. E ela conseguiu. Nunca a havia visto naquele nível de performance. A gente sabe que ela tem um potencial gigantesco e tem muita coisa adormecia dentro dela. A gente pode acreditar que vem muita coisa boa pela frente".

Etiene volta a empregar um tom cauteloso, até mais mineiro do que pernambucano. "Agora não estou nem pensando em Mundial (que começa no próximo dia 2, em Kazan, na Rússia). É hora de desfazer as malas para depois fazer de novo. É preciso colocar os pés no chão", pondera, para no final da entrevista demonstrar como suas ambições mudaram - de 2008, quando foi vice-campeã no Mundial Júnior do México, nos 50m costas, para hoje. "Eu sonhava ser uma grande atleta, sonhava ser uma atleta olímpica. Agora não sonho mais apenas em ser olímpica".


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