Por que o Brasil é tão bom no esporte paralímpico? Entenda as razões

Por iG São Paulo |

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Investimentos, população ampla, formação de ídolos e a falta de inclusão no mercado de trabalho fazem do país potência do paradesporto mundial. No Parapan, campanha foi histórica

Equipe do tênis de mesa comemora o desempenho no Parapan 2015, o melhor da história
Leandra Benjamin/MPIX/CPB
Equipe do tênis de mesa comemora o desempenho no Parapan 2015, o melhor da história


O resultado histórico nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto reafirmou uma tendência dos últimos anos: o Brasil se tornou uma potência paralímpica. Mas se no esporte olímpico o país ainda sofre para se colocar entre os melhores do mundo, por que o paradesporto nacional tem alcançado resultados tão mais expressivos?

Os motivos são variados e vão desde o investimento do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) até a própria exclusão sofrida pelos deficientes no mercado de trabalho, que lhe deixam o esporte como única alternativa de carreira.

Investimentos
A entidade que gere o esporte paralímpico nacional é o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que é o principal responsável por repartir e fazer os investimentos necessários nas modalidades. Segundo dados disponíveis no site da própria entidade, em 2013 a receita do órgão foi de R$ 100 milhões, entre recursos oriundos da Lei Agnelo/Piva, convênios com o Ministério do Esporte, parcerias com o governo de São Paulo e com a prefeitura do Rio de Janeiro, além de patrocínio da Caixa a 13 modalidades.

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Além disso, boa parte dos paratletas que compete representando o Brasil é agraciada com recursos do Bolsa-Atleta. Dos brasileiros que subiram ao pódio no Parapan de Toronto, 181 recebem o benefício, sendo que 69 deles são da categoria pódio – que entrega valores de R$ 5 mil a R$ 15 mil mensais a atletas com chances de medalha nas Olimpíadas e Paralimpíadas.

Outro investimento pesado feito em prol do paradesporto é a construção do Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, que vai concentrar a preparação de 15 modalidades. Ao custo de R$ 260 milhões, as obras começaram em 2013 e devem ficar prontas no início do ano que vem.

Centro de Treinamento Paralímpico, na zona sul de São Paulo, será inaugurado no início de 2016
Rodolfo Vilela/brasil2016.gov.br
Centro de Treinamento Paralímpico, na zona sul de São Paulo, será inaugurado no início de 2016


Grande número de pessoas com deficiência
Segundo o Censo 2010 realizado pelo IBGE, 23,9% da população brasileira possui algum grau de deficiência, o que compreende um universo de 45 milhões de pessoas. Só este número é maior que toda a população da Argentina (41 milhões de habitantes), Canadá (35 milhões), e quase o triplo de Chile (17 milhões) e Holanda (16 milhões). Considerando apenas graus mais severos de deficiência, o índice é de 8,3%, aproximadamente 15 milhões de pessoas.

Com uma população tão ampla, se torna mais fácil encontrar e recrutar potenciais paratletas de ponta no país. Da quantidade se extrai a qualidade.

Preconceito no mercado de trabalho
Segundo a Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (Rais), em 2013 havia 357,8 mil pessoas com deficiência com vínculo empregatício no país, o que representava apenas 0,73% do total. Uma disparidade enorme em relação aos números apresentados no tópico acima.

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Já uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Isocial e Catho, também de 2013, apontou que 65% dos gestores ouvidos afirmaram ter resistência de contratar pessoas com deficiência e que 93% demonstram resistência para entrevistar estes profissionais.

Com dificuldades para se inserirem no mercado de trabalho, o esporte surge como única alternativa de carreira viável para muitos portadores de deficiência.

Clodoaldo Silva (esq) inspirou toda uma geração seguinte de nadadores, incluindo Daniel Dias
Washington Alves/MPIX/CPB
Clodoaldo Silva (esq) inspirou toda uma geração seguinte de nadadores, incluindo Daniel Dias


Formação de ídolos
Com gerações vencedoras, o Brasil forma um ciclo que ajuda a incentivar a prática esporte entre os deficientes. Prova disso é Daniel Dias, dono de 15 medalhas paralímpicas, que iniciou na natação depois de acompanhar o ídolo Clodoaldo Silva brilhar com seis medalhas nos Jogos de Atenas-2004. O veterano, de 36 anos, inspirou toda uma geração seguinte de nadadores que, além de Dias, conta com André Brasil, outro multimedalhista das piscinas. Talisson Glock, Phelipe Melo e Ruiter Silva, todos com idade entre 20 e 25 anos e medalhistas no último Parapan, já despontam como o futuro da natação paralímpica brasileira.

Aqui vale também ressaltar a aposta bem-sucedida do Comitê, que em 2004, nos Jogos de Atenas, comprou os direitos de transmissão e distribuiu gratuitamente as imagens para quem quisesse exibir. A iniciativa, repetida em 2008, trouxe mais exposição e ajudou a popularizar o esporte e aos atletas paralímpicos.

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“O bom desempenho geral do Brasil nas Paralimpíadas gera ídolos e são eles que inspiram os novos atletas. Os meninos olham para nomes como Antônio Tenório e Clodoaldo Silva e sonham em praticar o esporte no alto rendimento”, destacou o presidente do CPB Andrew Parsons.

Mas embora os ídolos tenham papel fundamental na atração de novos atletas, o esporte paralímpico, hoje, atingiu um patamar em que não fica depende do desempenho de um ou outro nome destacado, faturando medalhas em diversas modalidades e categorias.

Confira imagens do último dia de competições do Parapan de Toronto:

Brasil venceu a Argentina no futebol de 7 e ficou com o ouro. Foto: Marcelo Regua/MPIX/CPBO Brasil suou para fazer 3 a 1 na Argentina na decisão do futebol de 7 . Foto: Marcelo Regua/MPIX/CPBFutebol de 7 confirmou o favoritismo com ouro sobre a Argentina. Foto: Marcelo Regua/MPIX/CPBTriunfo sobre os Estados unidos deu ouro ao Brasil no goalball. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPBO Brasil terminou o Parapan com campanha invicta no goalball. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPBEquipe brasileira de goalball no posto mais alto do pódio em Toronto. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPBBasquete em cadeira de rodas deixou o bronze escapar e ficou fora do pódio. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPBO basquete em cadeira de rodas terminou em quarto lugar ao cair para a Argentina na decisão do Bronze. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPBFora do pódio, os atletas do basquete em cadeira de rodas saúdam do público no ginásio . Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB


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